Está
frio. Preocupa-me que tenhas frio. Tens frio?
Sinto
a necessidade de me colocar estas perguntas sobre ti. Formulo-as e tento
responder-lhes em teu lugar.
Há
semanas em que procuro dias. Dias que me sirvam de desculpa para te telefonar. “Liguei
só para te desejar um bom dia dos frutos secos”. Construo, desconstruo e
reconstruo um motivo para te ouvir.
Para
perceber se as tuas palavras ainda sabem a café e tabaco.
Para
confirmar se as tuas frases ainda se alinham a uma velocidade estonteante e
acabam com um “certamente”.
Preciso
de te saber. Que fazes? Com quem te dás? Onde paras? Para onde vais quando
queres falar contigo? Que música tens ouvido? Os canais de notícias ainda são o
teu barulho de fundo quando não há pássaros?
As
perguntas não se esgotam. Multiplicam-se com os dias. Deixei de os contar. Dói
menos se pensar que ouvi de ti ontem.
Além
disso, estás sempre presente. Há coisas que são tuas sem que saibas, sabes?
Músicas, filmes, frases, momentos, noites que não acabam. Tanta coisa passeia
pedaços teus. Nenhuma me traz as respostas.
Preciso
delas. Ou de ti. Não sei. Não to vou dizer.
Tinhas
essa particularidade de me descarrilar as certezas. As que tinha erguido até
então, via-as ruir no momento em que te conheci.
Remexeste-me
as entranhas e os pilares. Fizeste do meu passado pó soprado ao vento.
Foste-me
espelho, que eu nunca me tinha enxergado. Não é que estivesse perdida, mas precisava
de ser encontrada por ti.
Era
outra. Tinha-me feito outra porque teimei não querer ser eu. Teimas minhas, já conheces.
Continuo a duvidar da História que vem nos livros.
Bem,
acredito que foi para isso que tu apareceste. Para me mostrar quem eu era, de
que era feita e quem poderia vir a ser.
Olho
para ti como um passado que se quis futuro e acabou por galgar o presente.
Vais
apanhar-me à chegada. Sei que quando estiver para terminar a minha viagem, tu
estarás lá para me ajudar com as malas que carregarei, ainda, de sonhos.
Viajar
sem ti tem as suas coisas boas. Posso cantar alto. Posso chorar alto. Posso
gritar contigo.
Tenho
gritado muito contigo. Tiras-me do sério quando vasculho as minhas memórias. A
propósito, estão cheias de ti, necessito de apagar algumas. Não sei quais
escolher, tens sugestões? Ainda guardas as tuas cópias delas?
Apago
as boas? As más? Quais me farão esquecer-te? Lembrar-te? O que quero?
Vês?
Continuo a disparar perguntas que não vão ter respostas. A cuspir cartas que
nunca te vou enviar.
Sim,
vou continuar a viagem. Espero que não tenhas frio.