segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ser ela mata.

Ela é hoje sozinha.
Ontem também o era.
Mas hoje diz ser mais.
Que hoje também mais dele.

Ela hoje vive a pão e água salgada nos olhos.
Como quem vive de outro jeito qualquer.
Ela vive assim.

Ela hoje está quieta, calada.
Diz que os passos que os outros dão ao afastar-se, bastam para a cansar.
E que as palavras de mentira nas suas bocas, a emudecem.

Ela hoje...
Ela hoje não quer ser ela.
Quer ser outra.
Que ser ela mata.
E ela quer-se nascida a cada nova madrugada.

domingo, 19 de agosto de 2012

Sempre.

Até chorámos o passado que já podíamos ser.
Até fomos um, não sei se ontem, se sonho.
Até nos quisemos encontrar amanhã.
Até fomos palavra, verbo, palavras, verso.

Até sempre.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Não ser.



Choras-me vezes sem conta essa tua condição de não seres.

Nem sombra num corpo que se perde na rua de outros, nem pó num porta-retratos perdido numa mesa-de-cabeceira do quarto de visitas, nem uma vaga memória nas memórias de alguém que quer apagá-las.

Dizes que não és.

Que ninguém sente saudades tuas quando acorda depois de não sonhar contigo, que ninguém te canta num poema que não escreve.

Que ninguém te quis e por ninguém te querer não és.
Que só se é se outro alguém for.

E se eu não quiser ser contigo?
O que não somos?

segunda-feira, 26 de março de 2012

Nela o sol não nasce.

(...)

Mas ficou com os seus sonhos.
E nesses sonhos pode eternamente tê-lo.

Nela o sol não nasce.

segunda-feira, 5 de março de 2012

De dentro de mim.

Tentei abraçar-te com aquele sorriso que tinha antes de chegares no verde de meus olhos,
Fui na frente para que não conhecesses o mundo que destruímos quando soltámos as mãos,
Arranquei-te de dentro de mim para que não te tornasses pó comigo no dia em que me deixaste.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Sonho meu.

Já te devia ter escrito.
Afinal já houve entre nós tantas despedidas.
E as cartas são para o adeus.

Mas nunca chegámos a partir.
Não sabemos o caminho que nos levou a nós.
E desconhecemos como voltar ao antes.

Houve antes?
Não se apagaram todas as memórias quando deixámos o mundo dos outros,
Para ficar no mundo que somos?

Não foi toda a nossa vida desencontro agora que nos encontrámos?
Foi antes vida a nossa agora que a vivemos os dois?

Sabes de mim como se me tivesses sonhado estes anos todos e apenas nesses sonhos tivesses sido.
Sei de mim agora porque só agora sou.

E de todos tu.
E dos ontens nada.
E o hoje teu.
E o amanhã nós.
E eu sempre tua.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Fénix.

Estamos sempre à espera de nascer de novo.
Que outros braços nos tragam à vida.
Que outros pés nos ensinem novo caminho.
Que novos olhos nos vejam.
Estamos sempre à espera de nascer de novo.
De nos aprendermos.
De aprendermos o brilho da lua.
De aprendermos o sal das lágrimas.
Estamos sempre à espera de nascer de novo.
Pedintes de paixões.
Mendigos de sonhos.
Indigentes de esperanças.
Estamos sempre à espera que nos encontrem para nascer de novo.
Fénix renascida, eis-me.